Biblioterapia de desenvolvimento, gestão das emoções e pensamento crítico: uma estratégia de intervenção para as bibliotecas escolares

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2012

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O conceito de biblioterapia, entendido como a função catártica da leitura, é reconhecido desde a Antiguidade Grega e Romana: na Poética, Aristóteles defende a leitura de poesia como um remédio contra a dor, o medo e o sofrimento e, no séc. I A.C., o médico romano Aulus Cornelius Celsus, recomendava a leitura e a discussão de obras de grandes filósofos como terapia, útil tanto no tratamento das doenças do coração, como para desenvolver as capacidades críticas dos pacientes. No entanto, o termo Biblioterapia surge apenas no final dos anos 30 do século XX, aplicado aos doentes dos hospitais, cujo sofrimento poderia ser amenizado pela prática da leitura que, ao mesmo tempo, contribuiria para o aumento da sua autoestima, bem como da qualidade de vida durante o internamento. Data do mesmo período o início da sua utilização como atividade bibliotecária, nos EUA, e o aparecimento desta prática em comunidades psiquiátricas, especialmente no âmbito do tratamentos dos soldados feridos na 2ª Guerra Mundial – nestes primórdios da biblioterapia, a participação dos bibliotecários começou por ser essencial na identificação e seleção das obras que melhor se adequariam aos tratamentos propostos mas, e também nessa medida, tratava-se ainda apenas de uma colaboração reativa (Pardeck, 1994). Sendo o estatuto da biblioterapia na biblioteconomia objeto de discussão, nomeadamente por se tratar de uma atividade predominantemente do foro médico, alguns autores propuseram uma nova via para a aplicação do métodos biblioterapêuticos, especialmente focada nos aspetos da aprendizagem e do desenvolvimento pessoal e que tem vindo a ser conhecida e utilizada como “biblioterapia de desenvolvimento” ou “desenvolvimental” (Caldin, 2001), ou ainda “supportive knowledge” (Baruchson-Arbib, 2000). Em Portugal, sobretudo na última década, a biblioterapia tem sido esparsamente praticada em hospitais pediátricos e começou a despertar a atenção de professores e bibliotecários, encarada como uma forma de promover hábitos de leitura e, ao mesmo tempo, contribuir para uma gestão otimizada das emoções e de um aumento da autoestima e das capacidades críticas, principalmente em crianças e jovens de risco, ou oriundos de meios sociais desfavorecidos. A partir da discussão do conceito de biblioterapia de desenvolvimento e da sua aplicação em bibliotecas, esta comunicação pretende apresentar os resultados de dois trabalhos de investigação-ação que demonstram a diversidade de perspetivas e estratégias que a biblioterapia permite no âmbito dos serviços prestados pelas bibliotecas escolares, num trajeto de colaboração com os docentes. Assim, no contexto do 2.º ciclo do ensino básico, e no âmbito de um clube de leitura frequentado por alunos do 8.º ano, apresentam-se os resultados de um estudo que procurou averiguar o impacto das sessões de biblioterapia de desenvolvimento na aprendizagem de aspetos relacionados com o auto conhecimento, a auto estima e a relação com os outros (Van-Zeller, 2011). Neste estudo, que se baseou na tese desenvolvida por Lipman (1988) sobre a filosofia para crianças, a seleção das obras a trabalhar teve como premissas a convicção de que o pensamento crítico é uma competência básica como a leitura e, por isso, deve ser objeto em si de ensino de forma direta e sistemática, e ainda que pensar criticamente implica a posse de competências e o domínio de técnicas que devem ser entendidas e praticadas. Os resultados obtidos permitiram verificar que os efeitos da aplicação prática da biblioterapia como pedagogia atuante da leitura transcenderam o espaço do Clube de Leitura onde a ação foi realizada, tendo-se revelado como um valor acrescentado na formação integral dos alunos, visível no aumento do seu interesse pela escola, na relação com os outros e no acreditar em si mesmos e nas suas capacidades, sobretudo em contextos educativos menos favorecidos, como aquele em que o trabalho se desenrolou. Uma outra via de aplicação do método biblioterapêutico foi seguida num estudo que incidiu sobre crianças a frequentar um Jardim de Infância, com idades entre os 3 e os 6 anos (faixa etária muito pouco explorada no contexto da biblioterapia), e que tinha como objetivo explorar o papel da Literatura como catarse das emoções e de auto-conhecimento, partindo do texto narrativo ficcional, enquanto ponte de comunicação com o leitor (Pedrosa, 2011). Com efeito, neste tipo de texto, a função poética é dominante, o que permite implicitamente, sob a forma de inúmeras metáforas, uma maior margem interpretativa e emocional por parte do leitor/ouvinte, criador de espaços intertextuais. A ação desenvolvida incidiu sobre a gestão de emoções como o medo e a agressividade, tendo-se verificado, na perspetiva de todos os elementos da amostra (pais e encarregados de educação, educador de infância e crianças), que foi visível o papel colaborativo da biblioterapia na gestão emocional, tendo-se verificado progressos na capacidade das crianças lidarem com sentimentos que, em tão pouca idade, mal compreendem e assimilam. Neste trabalho, e para a seleção das obras a trabalhar, foram considerados os elementos biblioterapêuticos definidos por Caldin (2001): catarse, humor, identificação, projeção e introjeção. A comunicação que agora se apresenta tem pois, como objetivos, enunciar o conceito de biblioterapia de desenvolvimento, entendida como um método eficaz de intervenção das bibliotecas na sua ação sobre os indivíduos e na prossecução das suas missões sociais, nomeadamente na promoção da cidadania e da inclusão social através do auto-conhecimento e da relação com os outros, apresentando duas vias de intervenção cujos resultados provaram o valor e a relevância do uso de tal método na atividade biblioteconómica, nomeadamente em contexto colaborativo, no âmbito das bibliotecas escolares. A relevância deste tema no ambiente e tempo social em que vivemos afigura-se-nos evidente, surgindo como uma proposta nova no campo da ciência da informação em Portugal, onde emerge como um campo ainda por explorar.

Keywords

Biblioterapia de desenvolvimento, Gestão das emoções, Sucesso escolar, Pensamento crítico, Pedagogia da leitura, Bibliotecas escolares

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